Quem foi Anaxímenes de Mileto?
Anaxímenes de Mileto foi um filósofo grego do século VI AEC., o terceiro e último pensador da Escola de Mileto. Discípulo de Anaximandro, propôs o ar como princípio de todas as coisas, explicando a diversidade do mundo por meio de dois processos naturais: rarefação e condensação.

Anaxímenes de Mileto: o filósofo que respirou uma explicação para o universo
Sopre na palma da mão com a boca bem aberta: o ar sai morno. Agora feche os lábios quase por completo e sopre de novo: o ar sai frio. Foi observando um experimento tão simples quanto esse que um homem em Mileto, há mais de 2.500 anos, decidiu que havia encontrado o princípio de tudo o que existe.
Quem foi Anaxímenes
Anaxímenes viveu em Mileto, na costa da atual Turquia, no século VI antes da era comum. Foi o terceiro nome da chamada Escola de Mileto — depois de Tales, que apontara a água como origem de todas as coisas, e de Anaximandro, seu mestre direto, que preferira um princípio abstrato e ilimitado. Anaxímenes discordou dos dois. Para ele, a resposta não precisava ser nem tão concreta quanto a água, nem tão indefinida quanto o ápeiron de Anaximandro. A resposta era o ar.
Não o ar como simples elemento entre outros, mas o ar como matéria-prima única de todo o cosmos — inclusive da própria alma humana, que ele descrevia como um sopro que mantém o corpo unido, assim como um sopro maior mantém unido o mundo inteiro. A ideia era, ao mesmo tempo, ousada e cotidiana: bastava observar a respiração para intuir uma cosmologia.
O verdadeiro salto de Anaxímenes, porém, não foi escolher o ar. Foi explicar como um único elemento poderia se transformar em todos os outros. Ele propôs dois processos físicos opostos: rarefação e condensação. Quando o ar se rarefaz — torna-se menos denso —, vira fogo. Quando se condensa — torna-se mais denso —, vira primeiro vento, depois nuvem, depois água, depois terra, depois pedra. Toda a diversidade do mundo material, da chama mais leve à rocha mais dura, seria variação de grau de um único princípio, e não uma mistura misteriosa de substâncias distintas e incomunicáveis.
Isso pode soar simples hoje. Mas é, possivelmente, a primeira vez na história registrada em que alguém tentou explicar a transformação da matéria por meio de um mecanismo físico verificável — densidade — em vez de recorrer a vontades divinas, mitos de origem ou forças arbitrárias. Anaxímenes não estava apenas nomeando um elemento primordial; estava propondo uma regra da natureza, algo que poderia, em princípio, ser observado e testado.
Essa mesma lógica naturalista orientou suas explicações para fenômenos que os contemporâneos costumavam atribuir a sinais divinos. Terremotos, para Anaxímenes, tinham causas físicas ligadas ao próprio comportamento da terra e da água, não a punições ou humores de deuses. O arco-íris era resultado da luz do sol incidindo sobre nuvens densas, um fenômeno óptico, não uma mensagem celeste. E a Lua, segundo ele soube perceber, não brilhava com luz própria — refletia a luz do Sol. Em uma cultura acostumada a ler o céu como palco de vontades divinas, Anaxímenes insistia em lê-lo como um sistema físico, sujeito a regularidades.
Sabe-se pouco sobre os detalhes de sua vida pessoal — nem mesmo as datas de nascimento e morte chegaram com precisão até nós, e boa parte do que se conhece sobre ele vem de relatos posteriores, como os de Aristóteles e de comentadores tardios que preservaram fragmentos e resumos de sua obra, hoje perdida em sua forma original. É uma lacuna comum aos primeiros filósofos gregos: conhecemos suas ideias mais por citação e comentário do que por texto direto.
O que torna Anaxímenes indispensável para a história do pensamento não é ter acertado a composição do universo — ele não acertou, e isso não é o ponto. É ter sido um dos primeiros a insistir que o universo tem uma composição unificada e explicável, sujeita a mecanismos observáveis, e que essa explicação pode ser corrigida, testada e substituída por outra melhor. Foi exatamente isso que aconteceu: seus sucessores rejeitaram o ar como princípio único, mas mantiveram viva a exigência que ele ajudou a consolidar — buscar, na própria natureza, a explicação da natureza.
Essa exigência, tão simples de enunciar e tão difícil de sustentar diante da tentação do sobrenatural, é o fio que liga Anaxímenes a praticamente toda a ciência que viria depois dele.
Biblioteca Avito de Anaxímenes
Nota editorial: Anaxímenes não deixou nenhuma obra completa que tenha sobrevivido até os dias de hoje. Assim como no caso de Tales e Anaximandro, seu pensamento chegou até nós de forma indireta — por meio de fragmentos, citações e resumos preservados por autores posteriores, sobretudo Aristóteles, Teofrasto e os doxógrafos da Antiguidade tardia. Por isso, a Biblioteca Avito de Anaxímenes reúne as melhores fontes secundárias disponíveis no mercado editorial brasileiro: coletâneas de fragmentos pré-socráticos com tradução, contextualização e comentário acadêmico rigoroso, que permitem ao leitor se aproximar do que realmente se sabe sobre seu pensamento.
Os Pré-Socráticos: Fragmentos, Doxografia e Comentários — organizada pelo professor José Cavalcante de Souza
Organizada e traduzida por José Cavalcante de Souza, esta é uma das coletâneas mais tradicionais e citadas da filosofia pré-socrática no Brasil. Reúne os fragmentos sobreviventes e os testemunhos antigos sobre Tales, Anaximandro, Anaxímenes e outros fundadores da filosofia grega, lado a lado com comentário histórico e filológico.
É a porta de entrada mais acessível para quem quer ler, em português, exatamente o que a Antiguidade preservou sobre Anaxímenes — sem intermediários modernos reinterpretando suas ideias antes da hora.
Para quem quer ir direto à fonte, ainda que a fonte sejam fragmentos, este é o ponto de partida.
Aprofundamento sobre Anaxímenes

Como surge o pensamento de Anaxímenes
Anaxímenes não surge do nada. Ele é, literalmente, herdeiro de uma linhagem: discípulo direto de Anaximandro de Mileto, que por sua vez fora discípulo de Tales de Mileto. Essa sucessão de três mestres e discípulos, todos na mesma cidade, ao longo de pouco mais de meio século, constitui um dos primeiros exemplos registrados de tradição filosófica contínua — uma escola no sentido mais literal da palavra, em que cada pensador herda o problema do anterior e propõe uma solução diferente.
De Tales, Anaxímenes herdou a pergunta fundamental: existe um princípio único do qual tudo deriva? De Anaximandro, herdou a ambição de que esse princípio explicasse a totalidade do cosmos, não apenas fenômenos isolados. Mas Anaxímenes discordou frontalmente do método de seu mestre: onde Anaximandro recorrera a um princípio abstrato e indefinido — o ápeiron, o “ilimitado” —, Anaxímenes insistiu em voltar a algo observável e nomeável. O ar podia ser sentido, ouvido no vento, visto condensar-se em névoa. Era um retrocesso à concretude de Tales, mas com uma inovação decisiva que nenhum dos dois mestres havia oferecido: um mecanismo. Rarefação e condensação não eram apenas palavras — eram um processo físico que, em princípio, qualquer pessoa podia observar ao soprar a própria mão.
Essa ideia de mecanismo — de que a transformação da matéria segue um processo repetível e observável — ecoou muito além de Mileto. Séculos depois, o filósofo Diógenes de Apolônia reviveria e expandiria a teoria do ar como princípio unificador, aplicando-a inclusive à explicação do pensamento e da consciência. Heráclito de Éfeso, ainda que tenha escolhido o fogo como elemento fundamental em vez do ar, manteve a mesma lógica de transformação contínua por processos naturais opostos. E quando Empédocles propôs, gerações mais tarde, que a realidade era composta não por um, mas por quatro elementos (terra, água, ar e fogo), estava respondendo, em certo sentido, ao problema que Anaxímenes deixara em aberto: se um único elemento pode se transformar em todos os outros, por que não simplesmente aceitar que existem vários elementos irredutíveis desde o início?
Dentro do próprio acervo do canal Vidas Aotoe, a conexão mais direta é com Tales de Mileto e Anaximandro de Mileto — os três formam, juntos, o núcleo fundador da filosofia ocidental, a chamada Escola Jônica. Mas há uma ponte inesperada e mais distante: a insistência de Anaximandro e Anaxímenes em buscar mecanismos naturais para fenômenos antes explicados por vontade divina — terremotos, eclipses, o brilho da Lua — antecipa, ainda que de forma rudimentar, a atitude metodológica que Charles Darwin levaria a um novo patamar de rigor mais de dois mil anos depois: a exigência de que a natureza seja explicada por processos naturais, verificáveis e passíveis de correção.
O valor de Anaxímenes
A crítica mais óbvia à física de Anaxímenes é também a mais fácil de antecipar: ele estava errado. O ar não é o elemento primordial do universo, e rarefação e condensação não explicam, de fato, a transformação da matéria em terra, água ou fogo. Nenhum historiador sério da filosofia discute isso — o valor de Anaxímenes nunca esteve no acerto da resposta.
Anaxímenes estava errado, mas seu valor nunca esteve no acerto da resposta.
O debate acadêmico genuíno gira em torno de outra questão: o que exatamente Anaxímenes estava fazendo quando propôs rarefação e condensação? Alguns estudiosos, como o próprio Charles Kahn, defendem que essa foi uma contribuição metodológica genuína — a primeira tentativa registrada de explicar mudança qualitativa (água virando pedra, por exemplo) por meio de uma variável quantitativa (densidade), uma lógica que reaparece, transformada, em praticamente toda a física posterior. Outros historiadores são mais céticos e apontam que atribuir a Anaxímenes uma “descoberta metodológica” pode ser um exagero retrospectivo — projetar sobre um pensador arcaico uma sofisticação conceitual que talvez ele não tivesse plena consciência de estar produzindo.
Há também divergência sobre até que ponto Anaxímenes realmente superou Anaximandro ou, na verdade, recuou diante dele. Anaximandro havia proposto um princípio abstrato justamente para evitar o problema de explicar como um elemento concreto (como a água de Tales) poderia se transformar em seu oposto (o fogo, por exemplo — como a água apagaria o fogo e ainda assim seria sua origem?). Ao escolher o ar como elemento concreto e único, Anaxímenes reintroduziu esse mesmo problema — e sua solução, rarefação e condensação, é justamente a tentativa de resolvê-lo sem abandonar a concretude. Uns leem isso como um avanço real sobre Anaximandro; outros, como uma simplificação que sacrificou a sofisticação lógica em troca de uma explicação mais palpável.
Por fim, como ocorre com quase todos os pré-socráticos, existe a incerteza inevitável sobre quanto do que se atribui a Anaxímenes é, de fato, dele, e quanto é interpretação ou simplificação feita por Aristóteles e pelos doxógrafos que vieram depois — muitas vezes com interesses filosóficos próprios ao organizar a história da filosofia anterior a eles.
O que ainda não sabemos sobre Anaxímenes
As datas exatas de nascimento e morte de Anaxímenes permanecem incertas — os estudiosos convergem, de forma aproximada, para o século VI a.C., mas sem consenso sobre décadas específicas. Não se sabe ao certo se ele chegou a testemunhar a conquista persa de Mileto, evento que abalou profundamente a cidade e, possivelmente, a continuidade da própria Escola de Mileto.
Também não sabemos até que ponto Anaxímenes escreveu uma única obra sistemática — tradicionalmente citada sob o título genérico “Sobre a Natureza”, comum a vários pensadores desse período — ou se seu pensamento circulou de forma mais fragmentada, por meio de ensino oral, e foi organizado textualmente apenas por discípulos ou comentadores posteriores. A prática de atribuir o mesmo título a múltiplos filósofos diferentes torna difícil, inclusive, separar com segurança o que é genuinamente de Anaxímenes do que pode ter sido reformulado por quem transmitiu suas ideias adiante.
Uma pergunta mais ampla, e ainda genuinamente aberta na história da filosofia, é até que ponto a “escolha” do ar por Anaxímenes foi fruto de observação empírica direta — como o exercício de soprar a mão sugere — ou se foi, em boa parte, uma escolha determinada por associações culturais já existentes entre ar, sopro e alma (psyché), presentes em crenças gregas anteriores à filosofia. Separar observação de herança cultural nos primeiros filósofos gregos é uma tarefa que a historiografia da filosofia ainda não resolveu de forma definitiva — e talvez nunca resolva com certeza total.
O que herdamos dele?
Anaxímenes raramente aparece em manchetes fora dos cursos de filosofia, mas sua herança conceitual permanece surpreendentemente ativa em dois campos distintos.
No campo da história e filosofia da ciência, historiadores continuam revisitando sua teoria da rarefação e condensação como um dos primeiros exemplos de raciocínio proto-científico: a tentativa de reduzir uma diversidade aparente de fenômenos a uma variável mensurável — no caso, densidade. Esse tipo de análise histórica é hoje uma ferramenta importante para entender como o pensamento quantitativo, tão central à ciência moderna, começou a se formar séculos antes de qualquer instrumento capaz de medir densidade com precisão.
No campo da educação filosófica, Anaxímenes segue sendo utilizado — em salas de aula e em materiais introdutórios de filosofia no Brasil e no mundo — como o exemplo didático mais claro de progressão metodológica dentro da própria Escola de Mileto: de Tales (elemento concreto, sem mecanismo de transformação) a Anaximandro (mecanismo abstrato, elemento indefinido) e finalmente a Anaxímenes (elemento concreto, mecanismo definido). Essa sequência continua sendo usada como uma das primeiras demonstrações, na história da filosofia ocidental, de como ideias evoluem por refutação e refinamento sucessivo — o mesmo princípio que, institucionalizado e formalizado, sustenta o método científico até os dias de hoje.
